Deolinda – Mundo Pequenino faixa a faixa

Davide Pinheiro Março 13, 2013 0

Deolindamundopequenino

Nos Deolinda, não há dramas de segundos ou terceiros álbuns. Cada novo disco respira saúde criativa e ideias grandiosamente imaginativas a partir de pequenos nadas de vida. Mundo Pequenino não é diferente nesse sentido, a começar pelo título Mundo Pequenino - um primo direito de O Grande Medo do Pequeno Mundo de Samuel Úria, também ele um autor importante na construção de um novo pop/rock luso com ouvidos na vizinhança e olhos no mundo.

A Deolinda continua a viver no subúrbio mas agora tem o passaporte muito mais carimbado. Felizmente, não se deixou deslumbrar por tudo o que de bom viveu e chegou a este Mundo Pequenino com vontade de arriscar. Se o primeiro Canção ao Lado foi uma pedrada no charco, um álbum seminal de uma nova linguagem, ao qual talvez ainda não se tenha dado suficiente importância, e o sucessor Dois Selos e um Carimbo firmou um som com raízes no fado mas de vistas largas, este Mundo Pequenino não é música do mundo: é música de vários mundos com sede em Portugal.

As canções estão mais ricas com “zonas tímbricas” – palavras dos próprios – nunca dantes experimentadas, baterias, percussões, cordas e sopros. Alguns arranjos chegam a soar a Beirut (!), reflexo dos milhares de quilómetros percorridos da Califórnia a Ljubljana mas sem nunca esquecer Sernancelhe. Se é o melhor álbum dos Deolinda, pouco importa, mas que é o mais completo é; se dúvidas restassem sobre o paralelo entre personalidade, riqueza criativa e êxito, elas dissipam-se em definitivo. Numa altura de apelos insistentes à emigração e exportação, isto é do melhor que Portugal tem para oferecer.

1. Algo Novo

Uma declaração de intenções. “O contrabaixo bate um tempo que habitua/e o nosso pé encaixa bem em seu bater/algo de novo que o meu corpo insinua/tu a meu lado ai agora é que vou ser” são os versos de conquista que abrem Mundo Pequenino. Adiante se confirmará que esta Deolinda está atenta aos problemas do país mas tem um fundo muito grande de esperança. “O melhor está para vir”, canta Ana Bacalhau deixando antever que não há uma Parva Que Sou neste álbum. E não há mesmo.

2. Concordância

Letra genial com marcha a abrir e arranjos de sopros à Beirut (lá está) pelo meio. Sem perder a identidade, a Deolinda torna o mundo mais pequenino. Esbate barreiras, cruza fronteiras e aproxima géneros. O dedo do produtor Jerry Boys começa a sentir-se na exploração de coros à Beatles no refrão.

3. Gente Torta

Uma ode disfarçada a Portugal ou a vista de um país por quem passa muitos dias fora. “Tu não gostas de mim/de quem fui, de quem serei” e “o que me choca e revolta é saber que é de ti que tu não gostas” é um olhar distanciado mas, ao mesmo tempo, apaixonado de quem defende a sua pátria e não se conforma com políticas internas. É também um retrato bem-disposto de um Portugal autofágico que vive tão obcecado com o exterior que esqueça a riqueza interior.

4. Há-de Passar

Há-de Passar pode ser a sequela de Parva que Sou. É a fotografia de alguém que se conforma com a sua sorte e traça as pernas. A canção é minimal e podia encaixar nos dois álbuns anteriores. A letra tem a cadência de Sérgio Godinho mas é inconfundivelmente Deolinda.

5. Medo de Mim

Uma das melhores do álbum e, novamente, com sinal verde ao desafio. Medo de Mim começa com uma linha de violoncelo e, embora as guitarras tenham o seu lugar perfeitamente definitivo, assenta num arranjo de cordas. Se os Madredeus não tivessem ouvido pós-punk, podiam soar assim. Lindíssima.

6. Musiquinha

Um single em potência. Melodicamente é riquíssima com todos os preceitos que a Deolinda tem – palavras-chave, fôlego infinito de Ana Bacalhau e um refrão poderosíssimo – e um complemento ritmico que, ao vivo, tem tudo para incendiar plateias. “Põe a musiquinha e abana essa anca” promete ser um dos hinos do próximo verão. Tem cor, alento e um arranjo free-jazz a fechar de grande compleição. Talvez a canção mais completa que alguma vez gravaram.

7. Semáforo da João XXI

Uma valsinha para aliviar da tempestade sonora anterior. Semáforo da João XXI é, liricamente, a canção-tipo da Deolinda, cheia de referências localizadas – do Lux a Bertold Brecht – com brilhante interpretação teatralizada de Ana Bacalhau e arranjo simples dentro da complexidade. Mais uma para ser partilhada compulsivamente.

8. Seja Agora

single certo. O corpo é o da Deolinda mas a roupagem tem novas tendências como o suporte rítmico e os jogos de vozes entre os irmãos Pedro e Luís Martins. Uma canção de esperança e de atitude que, como na esmagadora maioria do cancioneiro da banda, tem uma mensagem inteligente e compreensível por todos.

9. Pois Foi

A Deolinda tem sete anos de vida e cinco de discos; este Pois Foi podia ter sido das primeiras canções escritas por Pedro da Silva Martins não fosse a pontuação surrealista de cordas com pizzicato à desenhos animados pelo meio. Inesquecível o “Hã Hã/Pois é” de Ana Bacalhau. Colheita vintage.

10. Balanço

Que seria de um álbum sem uma balada romântica sonhadora? “Nada te vai acordar/nem a crise/nem os bancos/nem as contas/nem os avisos“. Balanço foi certamente imaginada numa noite de insónia positiva em que tudo é leveza e “esperança no destino“. Não há muitas canções com esta capacidade de agitar o saco lacrimal que não caiam na lamechice barata de filme de domingo à tarde. Esta tem sensibilidade e o bom senso de evitar o óbvio.

11. Doidos

Chega de saudade. Doidos é talvez a maior surpresa do álbum, não só por ser uma marcha mas sobretudo por uma letra física que apela aos apetites do corpo. A expressividade de Ana Bacalhau quando canta “é doido” dá vontade de criar um ringtone com esta passagem. A Deolinda também é isto: uma cantora de engate que faz o contraponto a António Variações. Outra das que promete transformar as plateias desse mundo numa Avenida da Liberdade em noite de 12 de Junho.

12. Não Ouviste Nada

Mais próxima do anterior Dois Selos e um Carimbo, está instrumentalmente muito próxima dos Madredeus até chegar ao refrão. Aí, entra António Zambujo e a canção sobe ao pico da montanha russa. O complemento de vozes com Ana Bacalhau é exemplar.

13. Quem Tem Pressa

Uma saída airosa tipo final de concerto com uma canção que define a vida louca desta personagem: “quem tenha pressa que vá andando/se me perguntas eu respondo/eu nem vou pelo destino/vou apenas pelo gozo que me dá este caminho”. E é isto.

Deolinda

Mundo Pequenino

Boom Studios/Universal

4/5

 

 

 

 

 

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